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Patriotas e Traidores: Antiimperialismo, Política e Crítica Social
ESGOTADO

Editora: Perseu Abramo
Autor: Mark Twain
P?ginas: 464
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Produto esgotado.



SINOPSE:


Maria Sílvia Betti 

No mundo editorial brasileiro Mark Twain esteve associado sempre a dois aspectos predominantes: em primeiro lugar, à imagem de um escritor para o público infanto-juvenil; em segundo, de um autor de livros considerados “clássicos” da literatura norte-americana. 

Uma consulta à relação de títulos disponíveis atualmente nas livrarias não deixa dúvidas a esse respeito: cinco diferentes editoras têm As Aventuras de Tom Sawyer em seus catálogos, e três têm As Aventuras de Huckleberry Finn. Via de regra esses e outros títulos de Twain são encontráveis em coleções de caráter paradidático, e nas páginas eletrônicas das casas editoriais o material informativo a respeito é visivelmente dirigido ao professor de ensino médio, estimulando a possível adoção dos livros como material de leitura programada. 

A grande difusão das obras de Mark Twain em traduções brasileiras se dá a partir do segundo pós-guerra, num contexto em que a veiculação da cultura e da literatura norte-americana terão grande estímulo oficial. Nesse período o aprendizado do inglês vai ganhando espaço no currículo escolar de nível médio, e a mídia cinematográfica encarrega-se de veicular versões altamente idealizadas e romanceadas de episódios da história do país, de seu mundo institucional, de suas práticas culturais e de seu modo de vida, o chamado American way of life. 

Com a posição absolutamente hegemônica ocupada pelos Estados Unidos no cenário mundial, a circulação de produtos culturais de estímulo a um imaginário pró-americano torna-se um fator para o crescimento do interesse pela cultura do país. Se até meados da década de 1940 o brasileiro de escolaridade média era inevitavelmente exposto ao idioma francês como língua estrangeira, a partir desse momento ele o será ao inglês, e cada vez mais ao inglês norte-americano. 

Dentro desse contexto, cresce um mercado de consumo de produtos culturais norte-americanos ligados ao cinema e à indústria fonográfica, e serão estes os setores que passarão a ocupar as posições de supremacia no que se refere ao contato com o idioma, a cultura e a literatura dos Estados Unidos. 

Fazendo-se as devidas e necessárias exceções, a literatura norte-americana não possuía, até esse momento, um público leitor expressivo, mesmo entre a intelectualidade e a classe abastada. O número de traduções de obras norte-americanas em língua portuguesa era ainda incipiente, e o grau médio de domínio do inglês não facilitava a leitura dos originais. 

É pelas mãos de Monteiro Lobato que pela primeira vez um livro de Mark Twain irá ter, em 1934, sua primeira tradução nacional. Trata-se de As aventuras de Huck. Monteiro Lobato havia sido adido comercial em Nova York entre 1927 e 1931. O período de permanência no país proporcionara-lhe amplo contato com a literatura em língua inglesa em geral, e em particular com a norte-americana, e Lobato, talentoso na arte da tradução-adaptação literária, encontra em Twain pontos de afinidade com suas próprias convicções de escritor. Posteriormente ele viria a traduzir e adaptar também As aventuras de Tom Sawyer, em tradução adaptada que continua encontrável, seja em catálogos de editoras atuais, seja nos acervos de bibliotecas. 

Com o passar do tempo, a crescente divulgação da cultura norte-americana e a implantação do estudo de literatura norte-americana em universidades, o grau de conhecimento da obra de Twain passa a aumentar gradativamente. Outras traduções vão se somando às primeiras, e inúmeros outros tradutores e adaptadores retrabalham títulos já anteriormente publicados. Os lançamentos alternam-se entre coleções de literatura adulta e infanto-juvenil, reproduzindo aqui uma tendência também observável no contexto original. 

No âmbito universitário, à medida que os estudos literários passam a incluir um repertório de literatura norte-americana, Twain começa a ser lembrado cada vez mais sob o prisma da celebridade cujo trabalho transcende o tempo. Sob este ângulo, suas obras são consideradas indissociáveis de um regionalismo e de uma “cor local” ligados ao contexto cultural do sul dos Estados Unidos e, a essa altura, já popularizados pela mídia sob a forma de musicais, de filmes de ação e de aventura. 

É importante que se lembre que a idéia de uma literatura de massas não desagradava Twain, assim como também não o desagradava uma literatura não preocupada em atender exclusivamente ao gosto das elites e dos literatos e críticos. Twain foi também co-editor de seus próprios trabalhos, e conhecia as agruras financeiras do mercado editorial. A idéia da diversificação de seus escritos apresenta-se desde o início de sua carreira, tanto na ficção como nas conferências, que ele reelaborava e reapresentava sucessivas vezes. Nenhum destes dois traços contradiz ou desautoriza o empenho antiimperialista dos últimos anos de sua vida: muito pelo contrário, já que ele fez questão de utilizar sua facilidade de circulação na mídia escrita da época para difundir e debater em prol da causa antiimperialista. 

Lobato não foi o único escritor a traduzir trabalhos de Twain: também Fernando Sabino, Carlos Heitor Cony e José Geraldo Vieira realizaram traduções e recriações ainda encontráveis em edições correntes.

Ao contrário do que se deu no Brasil, a circulação de traduções de textos de Mark Twain em Portugal inicia-se ainda no século xix, com “Por telephone”, publicado no Correio de Portugal em 29 de janeiro de 18881. 

Apesar de não ser conhecida no país até esse momento, a obra de Twain começa a passar por uma grande divulgação, nesse período, por conta da circulação de periódicos literários que irão servir de meio de divulgação principalmente de seus contos. Assim, entre a década de 1890 e a de 1930, Twain irá tornar-se um dos escritores norte-americanos mais difundidos em Portugal. 

Tal como ocorreu no contexto brasileiro, a imagem fixada pelas traduções portuguesas é a de um escritor jovial e mordaz por excelência. Os escritos com maior profundidade psicológica de elaboração, como é o caso de O homem que corrompeu Hadleyburg, de 1899, ou os escritos antiimperialistas do início do século xx não chegam a ser traduzidos nesta fase. Os periódicos, dotados de uma missão pedagógica e regeneradora, privilegiavam as narrativas joviais e simples, que transmitiam sem idealizações a necessidade de se refletir sobre a cultura norte-americana de forma crítica. 

Como observa Maria de Deus Duarte, a ilusão de uma presença freqüente de Twain nos periódicos literários e antologias dessa fase não deve ser superestimada, uma vez que o número elevado engloba a ocorrência de inúmeras repetições2 . 

Quanto aos romances, sua tradução e divulgação ocorre, em Portugal, aproximadamente na mesma época em que no Brasil, ou seja, na década de 1940. Maria de Deus Duarte cita, como fator importante nesse sentido, a iniciativa da Editorial Inquérito, que a partir de 1944 passa a contribuir para tornar Twain popular ao extremo. Sua popularidade atinge o máximo nas décadas de 1970 e 1980, quando se implanta em Portugal o segundo texto em língua inglesa como leitura extensiva nas aulas de língua inglesa do ensino básico. 

A partir daí, como observa Maria de Deus Duarte, passa a predominar a veiculação de Twain como ícone da própria cultura dos Estados Unidos. É significativa a esse respeito a afirmação da autora: 

“O poder de uma nação não existe sem os seus símbolos; as questões relativas à descrição estereotipada de um Sul esclavagista [sic] pré-Guerra Civil não parecem motivar a discussão do racismo que permanece na sociedade americana mas, inversamente, Mark Twain é eleito como ícone cultural, a par da estátua da liberdade, águia, bandeira, The Star-Spangled Banner, Uncle Sam, Columbia, Yankee (Doodle), ou E Pluribus Unum; Frogtown é lembrado como o ponto de reunião para o festival que celebra todos os anos, em maio, o autor de The Jumping Frog of Calaveras County (Calaveras County Fair & Jumping Frog Jubilee).”3 

Num processo análogo ao que se verifica no Brasil no mesmo período, o nome de Twain torna-se inseparável de uma esfera oficial de veiculação da cultura norte-americana. E é precisamente diante destas condições que a publicação aqui realizada de escritos antiimperialistas do autor ganha relevo, seja no sentido de corrigir os desvios e omissões do processo de recepção de sua obra, seja no de utilizá-la como introdução ao estudo e debate do imperialismo norte-americano, questão indiscutivelmente premente diante dos acontecimentos internacionais recentes. 

Maria Silvia Betti 
março de 2003 

Notas 

1. Duarte, Maria de Deus. “Mark Twain nos periódicos portugueses: 1890-1920: projeções e silenciamentos”. In: Actas do I Encontro Internacional de Estudos Anglo-Portugueses. De 6 a 8 de maio de 2001. 
2. Duarte, Maria de Deus, op. cit. 
3. Duarte, Maria de Deus, op. cit.

Sobre o autor:

Mark Twain (1835-1910), autor de As aventuras de Tom Sawyer, é considerado um “clássico” da ficção norte-americana. No entanto, toda a sua produção crítica sobre o imperialismo em geral e o expansionismo imperialista norte-americano em particular, publicada no começo do século XX, foi deliberadamente censurada durante décadas por parte do establishment editorial e acadêmico norte-americano. Este livro, organizado pela professora Maria Sílvia Betti (USP), reúne pela primeira vez no Brasil os principais – e surpreendentes – textos de Twain sobre antiimperialismo, política e crítica social.